segunda-feira, 7 de maio de 2018

Shibari: a tradição japonesa das cordas

O shibari tem suas origens históricas em uma limitação japonesa: na ilha havia pouco metal e na maioria ele era usado na produção de armas de guerra, em especial espadas. Assim, para prender prisioneiros, era necessário usar cordas. Essas amarrações foram se aperfeiçoando a ponto de se tornarem inclusive um tipo de tortura, já que descobriu-se que apertar determinados pontos poderia provocar dor.

Surgiu até mesmo uma arte marcial, o Hojojutsu, cujo principal objetivo era restringir o oponente com cordas e cabos.
Na falta de metais, prisioneiros eram amarrados com cordas.


A corda parecia estar em tudo no Japão: presentes eram amarrados com cordas. Nas bainhas das espadas existiam cordas. Nas histórias fantásticas, as princesas não estavam no alto de castelos, mas amarradas.  

Em algum ponto da história, alguém percebeu que essas amarrações poderiam provocar também prazer.

Um nome fundamental nessa virada foi Ito Seiyu.

Nascido em 1882, ele se tornou um mestre da xilogravura (gravura sobre madeira), uma arte que já tinha uma longa tradição erótica. Alguns desses gravadores já haviam se aventurado no uso da corda como elemento erótico e estético, entre eles Tsukioka Yoshitoshi, que fizera uma imagem de uma mulher grávida amarrada na obra “A casa solitária do pântano de Adachi” (a obra não era explicitamente erótica, já que a mulher aparecia ameaçada por um velho que afia uma faca, mas já havia ali alguns elementos eróticos).
Uma cena com uma princesa amarrada marcou a vida de Ito. 

Também popular na época era o teatro Kabuki, no qual era comum cenas de mulheres amarradas e torturadas com corda. A cena de uma princesa amarrada em meio a uma tormenta de neve impressionou  Ito para o resto da vida, influenciando-o na elaboração do Kinbaku.


Ito combinou essas influências para seus próprios objetivos, mudando o foco da tortura e do aprisionamento para o erotismo, a dominação e a submissão.
A segunda esposa de Ito, chamada Kiseko, era masoquista e sentia enorme prazer em ser amarrada e retratada pelo marido. Para satisfazê-la, Ito adaptou gradualmente as técnicas de amarração buscando substituir a brutalidade e dor pelo prazer. Dessa forma, as cordas que antes pressionavam nervos, provocando grande dor, passaram a buscar zonas erógenas e seguras.

Segurança, prazer e beleza são palavras que definem o estilo de Ito. Suas amarrações provocavam prazer em suas modelos, eram sempre seguras, de modo a não provocar danos (embora pudessem provocar dor) e eram belas. Tão belas que ele começou a produzir gravuras, fotografias e desenhos com elas, capturando o que ele chamava de “beleza do sofrimento”.

Embora tenha sido publicado inicialmente de forma clandestina, o trabalho de Ito foi ganhando projeção, até que a técnica se tornou muito popular a partir do final da II Guerra Mundial.
Nessa época começaram a surgir espetáculos públicos em que um mestre amarrava sua dorei para deleite da plateia. Surgiram mestres e discípulos, como na tradição das artes marciais.
Essa arte da amarração ganhou dupla nomeação: shibari (amarrar) e Kinbaku (amarração bonita). Com a popularização da técnica fora do Japão, a palavra shibari ganhou mais popularidade, talvez por ser mais sonora para os ocidentais.
Alguns mestres, no entanto, diferenciam o Shibari do Kimbaku alegando a relação entre o mestre e a dorei.
Osada Steve diz  Para que uma sessão de cordas possa qualificar-se como Kinbaku, é necessária uma simbiose com a mulher, desenvolvendo uma conexão a fim de conseguir uma troca emocional que transcenda os meros aspectos técnicos das amarrações; é necessário tocar sua alma”.
Akeshi Denki, que ajudou a difundir o Shibari/Kinbaku na Europa, definiu o Kinbaku como uma “comunicação entre duas pessoas utilizando as cordas como um meio. É uma conexão estabelecida com uma corda entre os corações de duas pessoas. A corda deve abraçar com amor, como os braços de uma mãe abraçando seu filho”.
A fala indica bem a diferença entre o Kinbaku (ou shibari) e o bondage ocidental: enquanto um visa unicamente a imobilização e é mais um meio para, por exemplo, torturar ou fazer sexo com a submissa, a técnica japonesa, além do seu nítido caráter estético e do caráter de aprisionamento, busca também estabelecer uma interação entre o Mestre e sua dorei. 

O shibari (ou Kinbaku) se desenvolveu como uma longa tradição. No Japão, a técnica é repassada de mestre para discípulo (são raros os ocidentais que são aceitos como discípulos). Tudo é ordenado dentro de rígidas regras que normatizam tudo: não só os tipos de amarração, a sua estética, a forma como cada amarração é feita, além do próprio ritual de amarração, a posição dos participantes etc. São regras rígidas muito bem estabelecidas na tradição japonesa da arte que incluem, por exemplo, a obrigação de que as mãos da dorei estejam aprisionadas na amarração. 

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